SÉRIE: EXPLICANDO A PSICANÁLISE

A Faculdade Laboro te convida a entender o mundo da Psicanálise através da Série “Explicando a Psicanálise”. Neste segundo episódio a coordenadora da Pós-Graduação em Psicanálise, Cultura e Sociedade, Profa. Ma. Lorena Guerini, vai responder a algumas perguntas bastante frequentes que dizem respeito as relações entre Psicanálise e Psicologia. Muitas pessoas têm interesse por essas áreas e não entendem muito bem quais são os principais pontos em comum e as principais diferenças entre a Psicanálise e a Psicologia.

Então, vamos explicar?

Faculdade Laboro: Professora, quais são os pontos comuns entre Psicanálise e Psicologia? É correto dizer que a Psicanálise é uma abordagem dentro da Psicologia?

Profa. Lorena Guerini: Em primeiro lugar é importante compreender porque tantas pessoas confundem essas duas áreas e geralmente pensam que a Psicanálise é uma abordagem da Psicologia. Essa compreensão, apesar de estar equivocada, não acontece por acaso. Ela está relacionada à tradição universitária no Brasil. Historicamente muitos psicanalistas fizeram parte da criação e consolidação dos cursos de Psicologia no Brasil, e ganharam lugar de destaque tanto no nível da Graduação quanto no nível da Pós-graduação. Em razão dessa herança histórica, todas as Universidades e Faculdades brasileiras incluem nos cursos de Graduação em Psicologia disciplinas específicas de Psicanálise e também estágios curriculares com orientação psicanalítica. Além do Brasil essa tradição também é muito forte na Argentina e na França por exemplo, mas na maioria dos países do mundo não é assim. Em consequência desse contexto universitário, a grande maioria dos psicanalistas brasileiros, em torno de 90%, tem graduação em Psicologia. Mas, apesar dessa afinidade histórica, Psicologia e Psicanálise são áreas bastante diferentes. Uma pessoa que estuda Psicologia, mesmo se tiver cursado os estágios com orientação psicanalítica, não se torna psicanalista ao concluir a graduação.  Para se tornar psicanalista é necessário fazer uma formação assentada no tripé da análise pessoal, formação teórica e supervisão clínica, que geralmente é oferecida pelas diversas instituições psicanalíticas.

Faculdade Laboro: Quais são então as principais diferenças entre a Psicanálise e a Psicologia e como essas diferenças dialogam?

Profa. Lorena Guerini: A Psicologia se consolidou como uma ciência no ano de 1879, em Leipzig, na Alemanha, através do trabalho de Wilhelm Wundt. Inicialmente a prática da Psicologia se restringia à pesquisa e experimentação científica em laboratório, visando investigar o funcionamento de aspectos como a percepção, a memória, as emoções e outras manifestações psíquicas do humano. Já a Psicanálise surgiu no ano de 1900, quando Sigmund Freud publicou seu livro intitulado “A interpretação dos sonhos”, e desde o seu nascimento se configurou como uma prática clínica e a teoria dessa prática. A Psicanálise influenciou muito a Psicologia pois foi somente após a criação de Freud que os psicólogos começaram a criar aplicações clínicas para seus achados científicos. Nesse sentido podemos afirmar que a Psicologia Clínica deve sua existência à Psicanálise, e não é à toa que todas as abordagens clínicas da Psicologia partem da Psicanálise – seja para criticá-la, seja para tomar algo dela e construir outras direções de trabalho. Já a Psicanálise não teve uma influência direta da Psicologia em suas primeiras décadas. Inicialmente a Psicanálise estava em diálogo direto com a Medicina, particularmente como a Neurologia e a Psiquiatria. Alguns contemporâneos de Freud defendiam a ideia de que a Psicanálise deveria se tornar mais uma especialidade dentro da Medicina. Felizmente essa ideia não venceu, e hoje em dia a Psicanálise é exercida por pessoas de diversas áreas de formação.

Faculdade Laboro: Mas então é possível se tornar psicanalista tendo graduação em outras áreas?

Profa. Lorena Guerini: Sim. Aproximadamente 10% dos psicanalistas no Brasil tem graduações em áreas como Medicina, Filosofia, Direito, Letras, Pedagogia, Economia, Ciências Sociais, etc. Como a Psicanálise nasceu vinculada à tradição médica, durante seus primeiros anos ela foi exercida apenas por médicos. Freud, o criador da Psicanálise, sempre foi contra essa ideia de restringir o exercício da clínica psicanalítica aos médicos, mas a Associação Internacional de Psicanálise, criada por ele, não aceitava candidatos que não fossem médicos. Essa realidade foi se transformando aos poucos, principalmente depois da criação de uma nova tradição com a obra do psicanalista francês Jaques Lacan, que consolidou o que conhecemos hoje como psicanálise lacaniana. Hoje em dia, para se tornar psicanalista, é exigido que a pessoa interessada tenha concluído algum curso de nível superior, em qualquer área, e que ela siga o tripé da formação do psicanalista, geralmente se vinculando a alguma instituição psicanalítica.

Para quem tem interesse em saber mais sobre esse tema a profa Lorena traz algumas indicações:

O livro “História da Psicologia: rumos e percursos” organizado pelos Profs. Jacó-Vilela, Ferreira e Portugal, especialmente o capítulo 24 que se chama “O movimento psicanalítico brasileiro”, escrito pela Prof. Jane Russo.

Outra sugestão de leitura é um artigo escrito pela profa Lorena Guerini e pelo Prof. Marcio Costa, que se chama “A história e o resto: oscilações clínico-políticas da Psicanálise e sua chegada no Brasil”, que pode ser baixado aqui.

Se você tem outras dúvidas, além dessas que selecionamos, ou quer que seja abordado de maneira mais detalhada sobre algum assunto, fique à vontade para colocar suas perguntas aqui em nosso blog, nos comentários ao final da página. Nós iremos analisar suas sugestões para seguir produzindo conteúdo de qualidade. Esperamos todos vocês em nossa próxima postagem.

Sobre a profa. Lorena Guerini:

Mestrado e Graduação em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora universitária. Coordenadora do curso de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Faculdade Laboro.

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