professora ensinando uma aluna
Como educadores precisamos fugir das padronizações e da necessidade de homogeneizar nossas turmas.

Ao analisarmos a prática docente desenvolvida por instituições de Educação Infantil, precisamos refletir, inicialmente, acerca da concepção de infância que intrinsecamente norteia todo o seu processo educativo.

Ao longo da história da sociedade ocidental, a criança foi vista sob diferentes óticas, que vão desde a um adulto em miniatura, sem características próprias ou mesmo particularidades condizentes ao seu nível de maturação, até a um ser social “singular” dotado de direitos assegurados em leis, como na atualidade.

Entretanto, é comum nos depararmos com uma demanda social que insiste na busca por uma escolarização precoce de nossas crianças, privilegiando o desenvolvimento de atividades pautadas em memorizações descontextualizadas da realidade do educando.

A função da Educação Infantil vai além do “ensino” de letras, números, cores e formas, bem como da competição acerca de quem consegue tornar-se “alfabetizado” com menos idade, como se isso fosse um atestado de sucesso profissional futuro. Algo que já foi desmentido pela ciência, através de diversas pesquisas da área da educação.

A Educação Infantil precisa ser vista como uma etapa da Educação Básica com características próprias, cujo principal objetivo é o desenvolvimento global da criança.

Como educadores precisamos fugir das padronizações e da necessidade de homogeneizar nossas turmas, como se todos os educandos “aprendessem” ao mesmo tempo e da mesma forma. Educação de qualidade deve ser pautada em processos individualizados, que contemplem as singularidades dos aprendizes.

Importância de manter o protagonismo

Em 1946, logo após a Segunda Guerra Mundial, Loris Malaguzzi, educador e idealizador da abordagem Reggio Emilia, já alertava para a importância de manter o protagonismo da criança durante o processo educativo.

O educador usou a expressão “as cem linguagens da criança” para destacar as diversas particularidades e potencialidades da infância e o quanto nós, educadores, devemos conhecê-las com o intuito de promover o desenvolvimento integral de nossos educandos.

Sendo assim, respeitar a infância vai além de proteger nossas crianças da violência, mas conhecer suas particularidades e entender que do zero aos seis anos (primeira infância) é o período da vida em que há maior neuroplasticidade.

Esse termo é referente à capacidade do sistema nervoso moldar-se ou adaptar-se, promovendo inúmeras aprendizagens que impactam toda a vida do indivíduo.

Por isso, é tão importante que a Educação Infantil promova experiências de aprendizagens motivadoras, lúdicas e afetivas. A criança aprende muito mais brincando e interagindo com seus pares e com adultos.

Respeito a infância

É preocupante que ainda tenhamos que discutir sobre respeito a infância em pleno século XXI, após diversos estudos comandados por teóricos renomados da área da educação, tais como:

Lev Vygotsky, Jean Piaget, Henri Wallon e tantos outros, que desvendaram o desenvolvimento infantil comprovando a importância da motivação, ludicidade e afetividade para o processo de construção da aprendizagem.

No Brasil, alguns marcos legais aprovados asseguram a educação como um direito de nossas crianças , tais como:

  • Constituição Federal;
  • Lei de Diretrizes;
  • Bases da Educação (LDB 9394/96);
  • Plano Nacional de Educação.

Eles contribuem para a construção de uma concepção de infância que encara o educando como um ser histórico-social detentor de direitos e com especificidades que devem ser contempladas durante a construção de uma proposta curricular.

Todavia, em 2017, com a homologação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de caráter normativo, que apresenta as aprendizagens essenciais que todas as crianças devem desenvolver ao longo da Educação Infantil, o protagonismo infantil tornou-se essencial.

A BNCC apresenta 6 direitos de aprendizagem para a Educação Infantil, são eles:

  • conviver;
  • brincar;
  • participar;
  • explorar;
  • expressar;
  • conhecer-se.

Além disso, as Diretrizes Curriculares Nacionais já haviam destacado, anteriormente, que os eixos estruturantes dessa etapa da Educação Básica, devem ser: interações e brincadeiras.

Assim, podemos afirmar que tanto a ciência quanto os documentos normativos concordam que o principal objetivo da Educação Infantil é o desenvolvimento integral da criança, isto é, seu desenvolvimento cognitivo, psicológico, físico, motor, social, ou seja, o desenvolvimento em suas múltiplas dimensões.

Portanto, não é coerente com os estudos acadêmicos da área da educação nem tampouco com os marcos legais que direcionam as práticas educativas desenvolvidas no nosso país, defender um processo de ensino-aprendizagem que não priorize a construção de “vivências significativas” para nossas crianças.

Desta forma, uma prática docente pautada apenas em atividades de cópia, memorização, alfabetização precoce e de registros em geral, como ainda nos deparamos nos dias de hoje e tão defendida por alguns grupos que fazem parte de nossa sociedade, não está adequada a BNCC.

A Base organiza os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento para a Educação Infantil em campos de experiências que visam proporcionar as crianças vivências significativas que contemplem o desenvolvimento global das mesmas.

Profissional da pedagogia

O pedagogo é o profissional habilitado para atuar na docência da Educação Infantil, consequentemente, em seu processo de formação inicial deve haver um aprofundamento teórico nas questões que contemplam o neurodesenvolvimento infantil.

Ccompreendendo assim a importância do desenvolvimento de atividades lúdicas e afetivas que motivem a participação das crianças e contribua decisivamente para o seu processo educativo.

A sociedade é dinâmica, sendo assim, é primordial que cada profissional da educação tenha compromisso com sua formação que, segundo Pedro Demo, deve ser permanente. A concepção de infância da sociedade contemporânea mudou e a educação deve acompanhar tais mudanças priorizando o respeito a infância no processo educativo.

É nosso papel como pedagogos, cientistas da educação que somos, levantarmos essa bandeira. E as orientações devem transcender os muros da escola, chegando aos pais e a sociedade em geral. Esse deve ser o nosso compromisso!

Leia também:

Educação Elitizada ou Direito para todos

Webinar Direito à educação da pessoa com deficiência

A prática da leitura para as crianças hospitalizadas na UTI

Acesse nossas redes, consulte nossos Cursos, se inscreva em nosso Canal do YouTube e faça parte da Faculdade Laboro.

Autora:

Prof. Ma. Livia Mariana Costa

Professora da Faculdade Laboro

Mestra em Cultura e Sociedade com área de pesquisa em Tecnologias Digitais na Educação. Psicopedagoga. Graduada em Pedagogia. Professora da Educação Infantil, Graduação e de Pós- Graduação na área de Educação.. Experiência em tutoria em Educação à Distância, coordenação pedagógica, formação de professores e docência.

[email protected]

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.

CRAIDY, C; KAERCHER, G. E. Educação infantil: para que te quero? Porto Alegre: Artmed, 2001.

DWARDS, C.; GANDINI, L.; FORMAN, G. (Org.). As cem linguagens da criança: a experiência de Reggio Emilia em transformação. Porto Alegre: Penso, 2016. v. 2.