O uso de aplicativos digitais para promover hábitos saudáveis de alimentação em idosos

O uso da internet vem aumentando entre a população, bem como o uso de aplicativos para cuidados com a saúde, auxiliando a adoção de hábitos alimentares saudáveis e autogerenciamento de doenças crônicas; o que pode beneficiar também aos idosos. Estudos demonstram bons resultados quando esses recursos são integrados à assistência profissional presencial e remota, e quando as interfaces são adaptadas ao público usuário.

Este texto é fruto da disciplina de Pós-Graduação “Produção e Inovação Científica” ministrada como último módulo para a formação dos alunos da Laboro. Nela, os alunos aprendem como aplicar conceitos e ferramentas de forma assertiva e criativa para fomentar a inovação na ciência.

Autora: Regiana da Silva, Aluna do Curso de Pós-graduação Saúde do Idoso: Gestão e Assistência em Gerontologia,

Orientadora: Profa. Dra. Cristiane Parente

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) projeta que tenhamos 14,26% da população brasileira com 60 anos ou mais em 2020 e que aumente para 32,18% em 2060 (IBGE, 2019). E, com a longevidade, aumenta a chance de ocorrência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) para quem não as previne adotando hábitos saudáveis ao longo da vida.

As DCNT são responsáveis por 72% das mortes ocorridas no Brasil. Essas correspondem às doenças cardiovasculares, dislipidemia, hipertensão, diabetes mellitus, acidente vascular cerebral, câncer e doenças pulmonares crônicas. Os principais fatores de risco para as doenças crônicas são o tabagismo, o consumo nocivo de álcool, inatividade física e a alimentação não saudável (BRASIL, 2018). Referente a este, um estudo realizado pelo Ministério da Saúde revela que o consumo adequado de frutas e hortaliças (400 g ou 5 porções ou mais por dia) é adotado por apenas 23,1% da população das capitais brasileiras maior ou igual a 18 anos; e 14,4% ingere refrigerantes na maior parte dos dias da semana (BRASIL, 2019); o que colabora com o aumento da prevalência de excesso de peso e obesidade na população.

Atualmente, 80% da população brasileira usa a internet, sendo a grande maioria por meio de celulares inteligentes (smartphones) (FGV, 2019). E, a Organização Mundial da Saúde vem estimulando políticas públicas que favoreçam a interação positiva dos idosos com as inovações tecnológicas atuais e o seu uso em promoção de saúde (ELBERT et al., 2016)

O estudo de Elbert (2016) avaliou por seis meses a eficácia do uso de aplicativo para smartphones em mudança de comportamento alimentar, e qual método seria o mais efetivo para essa mudança (uso de texto ou audiovisual). A amostra compreendia pessoas de 16 a 71 anos, que consumiam menos de 200g de vegetais e 2 porções de frutas por dia. O aplicativo tinha cardápio, receitas, listas de frutas e verduras e planos de ação.

Foram fornecidas orientações prévias presenciais e uma vez por mês os pesquisadores enviavam orientações pelo aplicativo com textos ou áudios. Observaram o aumento da ingestão de frutas e verduras, sendo as orientações por áudio mais efetivas (p<0,02), provavelmente por deter mais atenção. As limitações foram a escolaridade, renda, conhecimento e percepção individual de saúde; mas que podem ser superadas com adaptações.

Outro estudo clínico randomizado avaliou a eficácia de um programa de 12 meses para perda de peso, entre pessoas de 21 a 65 anos de baixa renda, e que apresentavam obesidade, hipertensão, diabetes, dislipidemia e elevado risco cardiovascular. Foram utilizados um aplicativo digital que induzia o auto monitoramento por questões interativas para a aferição de peso e ao alcance de metas; orientações de nutricionistas através de ligações telefônicas, além de aconselhamentos clínicos via aplicativo. Já, o grupo controle recebeu acompanhamento padrão com os profissionais do centro de saúde e orientações escritas. Os resultados com o uso da tecnologia foram positivos para a adesão ao auto monitoramento e às orientações de nutricionistas; havendo redução de peso significativa (p<0,001), da circunferência de cintura e da pressão arterial comparadas ao outro grupo de acompanhamento convencional (BOELS et al., 2018).

Em pesquisa simples por aplicativos que auxiliem hábitos alimentares saudáveis direcionados para idosos no Brasil, não foram encontrados específicos, só para a população em geral ou para jovens. No entanto, há alguns de fácil manuseio e linguagem que podem beneficiar a população idosa aos cuidados de nutrição (como o Armazém da Saúde, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Câncer, que propõe estimular a adesão à alimentação saudável e disseminar informações (INCA, [?])).

Alguns também promovem a aproximação do profissional de saúde com o paciente, armazenando informações da rotina do usuário que podem ajudar a identificar padrões e direcionar orientações; como o Dieta Dash, desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em parceria com o Ministério da Saúde, que promete linguagem simplificada para profissionais e pacientes em orientação de alimentação saudável para a prevenção e controle da hipertensão arterial (ROCHA, 2015). Há outros com a possibilidade de interação profissional bem populares entre os brasileiros, mas que podem ser menos atrativos para os idosos pela linguagem utilizada (exemplos: TecnoNutri, My Fitness Pal, Dieta e Saúde).

Apesar de escassos os estudos específicos com idosos do uso de tecnologia digital em cuidados com a saúde, os achados são promissores; e apontam para os benefícios de aliar os aplicativos ao incentivo de hábitos saudáveis de alimentação; ao autogerenciamento de DCNT; e a melhora de dados bioquímicos (principalmente glicemia) (BOELS et al., 2018; ELBERT et al., 2016; LAMPRINOS et al., 2016); quando integrados a programas de assistência profissional presencial, uso de recursos diversos (como jogos e vídeos), aproximação de contato com os profissionais através de troca de mensagens e conversas por
aplicativo e ligações telefônicas. Entretanto, ressalta-se a importância de adequar os instrumentos às características individuais dos usuários (idade, grau de instrução, entre outros) para serem mais eficazes (ELBERT et al., 2016).

Para facilitar e atrair os idosos ao uso de aplicativos, requer propiciar a vivência de uso de aparelhos eletrônicos e internet, o desenvolvimento de instrumentos intuitivos, linguagem e nomenclatura adaptada ao público alvo e simplicidade de acesso. Contudo, há muitas oportunidades de negócio e possibilidades de avanço do uso de soluções tecnológicas direcionadas aos idosos, sendo promissoras as inovações que estimulem hábitos de vida saudáveis, melhora da qualidade de vida e inclusão digital.

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Referências Bibliográficas

BOELS AM, RUTTEN G, ZUITHOFF N, WIT A, VOS R. Effectiveness of diabetes self-management education via a smartphone application in insulin treated type 2 diabetes patients: design of a randomised controlled trial (‘TRIGGER study’). BMC Endocrine Disorders (2018) 18:74. doi.org/10.1186/s12902-018-0304-9.

BRASIL, Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2018: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2018. Brasília, 2019. Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.b/images/pdf/2019/julho/25/vigitel-brasil-2018.pdf.
Acesso em 28 jan.2020.

BRASIL, Ministério da Saúde. Relatório do III Fórum de Monitoramento do Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil. Brasília, 2018. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/relatorio_iii_forum_monitoramento_plano.pdf. Acesso em 28 jan.2020.

ELBERT SP, DIJKSTRA1 A, OENEMA A. A Mobile Phone App Intervention Targeting Fruit and Vegetable Consumption: The Efficacy of Textual and Auditory Tailored Health Information Tested in a Randomized Controlled Trial. J Med. Internet Res 2016;18(6):e147. doi:10.2196/jmir.5056

FGV – Fundação Getúlio Vargas. Pesquisa Anual do Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, FGVcia: Centro e Tecnologia de Informação Aplicada da EAESP, 30a edição. Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://eaesp.fgv.br/sites/eaesp.fgv.br/files/pesti2019fgvciappt_2019.pdf.Acesso em 28 jan.2020.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Rio de Janeiro, 2019. Disponível em https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9109-projecao-da-populacao.html?edicao=21830&t=resultados. Acesso em 26 jan.2020.

INCA – Instituto Nacional do Câncer. Aplicativos: Armazém da Saúde. Rio de Janeiro: Ministério da Saúde, [?]. Disponível em: https://www.inca.gov.br/aplicativos/armazem-da-saude. Acesso em 08 fev.2020.

LAMPRINOS I, DEMSKI H, MANTWILL S, KABAK Y, HILDEBRAND C. PLOESSNIG M. Modular ICT-based patient empowerment framework for self-management of diabetes: Design perspectives and validation results. Int J MedInform. 2016 Jul;91:31-43. doi: 10.1016/j.ijmedinf.2016.04.006.

ROCHA, G. Aplicativo auxilia na orientação nutricional para refeições saudáveis In: Ministério da Saúde. Blog da Saúde. Brasilia, 30 set. 2015. Disponível em: http://www.blog.saude.gov.br/z4eir9 Acesso em 08 fev.2020.

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