O movimento “Black Lives Matter” precisa ser enraizado em nossas práticas

Por: Juara Castro

“Black Lives Matter” (BLM), significa em português, vidas negras importam. O surgimento do movimento é uma tentativa de denúncia aos abusos e crimes cometidos por policiais americanos contra homens e mulheres negras em todo o país. Para além de uma hashtag (#BlackLivesMatter ou #VidasNegrasImportam – mecanismo de busca e aglomeração de informação nas redes sociais digitais), o BML é uma organização, fundada em 2013 por três ativistas norte-americanas: Opal Tometi, Patrisse Cullors e Alicia Garza, que lutam respectivamente nas frentes de imigração justa para negros, contra a violência policial em Los Angeles e em prol das trabalhadoras domésticas americanas.

Nas últimas semanas tivemos uma retomada da pauta motivada pelo lamentável episódio no dia 25 de maio de 2020 em Minneapolis – Estados Unidos, onde o policial Derek Chauvin asfixiou George Floyd até morte durante uma abordagem da polícia. Mesmo sendo filmado, Chauvin não sentiu-se intimidado, tanto que pressionou o pescoço de Floyd com seus joelhos por longos minutos, ainda que a vítima tivesse constantemente sinalizando que o ar estava lhe faltando. Casos como esse escancaram a existência do racismo estrutural, ou seja, do mecanismo que constitui nossas relações sociais e que considera “normal” pessoas negras em situações subjugadas e discriminatórias (assista no Youtube Silvio Almeida – “O que é racismo estrutural”). Vale ressaltar que essa estrutura não é uma particularidade norte-americana, mas que também segue latente e operante no Brasil. Esse mesmo racismo estrutural ceifou a vida de João Pedro, Ágatha e Miguel, três crianças brasileiras que possuem em comum os sonhos interrompidos e a pele negra que os tornaram alvos, assim como George Floyd.

O movimento para além da hashtag

Todos os casos anteriormente citados motivaram uma grande mobilização nas principais redes sociais digitais contemporâneas: Facebook, Twitter e Instagram. As telas ficaram pretas e frases como “vidas negras importam, “mães pretas não aguentam mais chorar” e “eu quero respirar” estamparam faixas e postagens. Grupos civis organizados também tomaram as ruas em diversas cidades dos Estados Unidos e também no Brasil pedindo justiça e denunciando sobretudo os crimes cometidos por instituições policiais contra negros e negras. Mais uma vez o mundo está se mobilizando, ainda que pontualmente, para combater o racismo estrutural que infelizmente se materializa nos corpos negros de forma violenta e desumana. Combater o racismo estrutural depende sobretudo de cultivarmos atitudes antirracistas em nosso cotidiano. Como ressalta a filósofa Angela Davis: “Em uma sociedade racista, não ser racista não é o bastante. É necessário ser antirracista”. Diante disso, quais práticas diárias podem fortalecer a luta antirracista?

  1. A sua “escuta” –  Com quantas pessoas negras você já conversou? Vozes negras sempre foram silenciadas ao longo da História. É preciso conhecer e aprender com as narrativas de pessoas negras. Hoje muito se discute sobre “Lugar de Fala” (leia em Djamila Ribeiro – “Lugar de Fala”) como se o racismo fosse uma questão a ser resolvida por pessoas negras. Não! O racismo é uma responsabilidade de toda a sociedade.
  2. Questione os espaços e as presenças – Você já entrou em uma empresa, shopping, museu, restaurante, sala de aula, salão de beleza ou supermercado e contabilizou quantas pessoas negras estavam ali e quais atividades elas estavam desempenhando? Naturalizar a ausência de pessoas negras é cooperar com o racismo. Precisamos romper com o mundo que a escravidão criou (leia em Jessé Souza – “A Elite do Atraso”) para que “novas” senzalas e casas grande não sejam reerguidas.
  3. O seu consumo – Consumir é um ato político! O que nós consumimos de produtos, arte, narrativas, música, cinema e de tantas outras formas fala muito sobre o que somos e acreditamos. Existem pessoas negras na sua playlist? E na sua estante de livros, existem autoras e autores negros? Quantas pessoas negras você segue nas suas redes sociais? Nossos gostos precisam ser descolonizados (leia em Frantz Fanon – “Peles Negras, Máscaras Brancas”) para que o nosso processo cultural não seja uma reprodução racista.
  4. O seu vocabulário – A linguagem é poder! O que nós falamos se reflete imediatamente nos corpos sobre os quais nos referimos e que estão ao nosso redor. Nosso cotidiano está repleto de expressões racistas: “a coisa tá preta”, “denegrir”, “não sou tuas negas”. O que fazer com essas palavras? Elas precisam ser banidas da nossa linguagem e acima de tudo implicam em uma reflexão pessoal e também coletiva (leia em Gabriel Nascimento “Racismo Linguístico – os subterrâneos da linguagem e do racismo”). Por que historicamente associamos enegrecer à uma coisa ruim? A sociedade não pode ler isso como coincidência e com naturalidade.

A prática antirracista é desafiadora! Sobretudo pela necessidade de reconhecermos o racismo como parte estruturante e mantenedora da nossa sociedade. Diante de todas as manifestações que estão acontecendo em diversos lugares do mundo, tanto presencialmente, quanto virtualmente, a frase “vidas negras importam” não deve ser alterada para “todas as vidas importam”. Seria desonesto acreditar que todas as vidas são construídas para importar. É preciso que os versos de Emicida ecoem em nossas práticas: “A missão é recuperar, cooperar e empoderar…”

Sobre a autora:

Juara Castro da Conceição

Relações Públicas. Doutoranda e Mestra em Comunicação. Redatora, Professora e Pesquisadora nas áreas de Narrativas, Cibercultura e Racismo. Mulher preta e nordestina.

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